
IBJR contesta versão da ABRAS sobre consumo de alimentos x apostas
Na última quarta-feira, 28 de outubro, a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) divulgou comunicado relacionando períodos de aumento no consumo de itens básicos da alimentação à proibição das apostas online no Brasil, estabelecida em 25 de setembro pela Medida Provisória 1394/26.
Segundo a ABRAS, a alta no varejo alimentar está diretamente vinculada ao fato de os brasileiros não estarem mais gastando dinheiro com apostas no mercado legalizado. No entanto, a tese é contestada pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que publicou nota nesta quinta-feira, 29 de outubro, expondo seus argumentos.
Confira a íntegra do comunicado do IBJR:
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) vê com preocupação os dados divulgados pela ABRAS, que não comprovam que a proibição das apostas tenha provocado o aumento das compras de alimentos. Para estabelecer essa relação, é preciso avaliar quanto o consumo teria crescido de qualquer forma, considerando renda, emprego, preços e recursos das famílias.
Os próprios levantamentos da entidade mostram que o varejo alimentar já crescia de forma expressiva antes da proibição. No monitoramento semanal ABRAS/NIQ, as vendas nominais avançaram 7,9% entre 14 e 20 de setembro, antes da medida provisória, e 7,4% entre 5 e 11 de outubro, na comparação com as mesmas semanas de 2025. Esse histórico precisa ser considerado antes de atribuir o desempenho de outubro à proibição. Na análise sobre agosto, a própria ABRAS relacionou o aumento do consumo à melhora do emprego e da renda e à redução dos preços dos alimentos, com alta real de 2,71% nos lares no ano. Esses fatores são anteriores à proibição e precisam ser separados dos atribuídos à medida.
A queda nas transações via Pix também não permite concluir que os recursos foram para os supermercados. O número de transferências não revela quanto as famílias deixaram de gastar com apostas, para onde foi o dinheiro nem em que medida as apostas seguiram em plataformas clandestinas.
Pelo mesmo motivo, é necessário esclarecer a base técnica de números que circulam no debate, como os R$ 143 bilhões que as bets teriam retirado do comércio e os R$ 62,5 bilhões da renda das famílias. Segundo o Ministério da Fazenda, o mercado regulado registrou cerca de R$ 37 bilhões em GGR em 2025. O GGR é o total apostado menos os prêmios pagos, ou seja, o gasto líquido dos apostadores nas empresas autorizadas. No mesmo ano, o consumo das famílias foi de cerca de R$ 8,1 trilhões, segundo o IBGE. O GGR equivale, assim, a cerca de 0,46% desse consumo.
Já os R$ 62,5 bilhões decorrem de uma estimativa baseada em transferências via Pix, sem distinção entre operadores autorizados e plataformas clandestinas, e os R$ 143 bilhões, de uma estimativa de vendas que o comércio teria deixado de realizar. Nenhum dos dois equivale ao gasto efetivo dos apostadores no mercado regulado. Antes de usá-los em conclusões sobre o setor, é preciso esclarecer métodos, períodos e mercados considerados.
