
Propagandas de bets ilegais seguem nas redes sociais mesmo após bloqueio da MP
A Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada pelo Governo Federal no Diário Oficial no dia 25/09, proíbe as casas de apostas de funcionarem no Brasil, bem como a veiculação de propagandas de bets no país. No entanto, pelo menos nas redes sociais, a proibição não tem afetado os anúncios de casas ilegais.
Em levantamento exclusivo feito pela equipe do Aposta10 no dia 14/10, foi possível detectar diversos anúncios de casas de apostas voltados para o público brasileiro tanto no Facebook, quanto no Google e no TikTok.
Com uma pesquisa rápida, usando apenas as ferramentas oficiais de cada plataforma, nosso time foi capaz de encontrar anúncios ativos promovendo casas de apostas e jogos de cassino.
Na Biblioteca de Anúncios da Meta, encontramos mais de 26 anúncios ativos exclusivamente para uma plataforma listada como ilegal na ferramenta Bet Legal. Os anúncios “driblam” o bloqueio oficial da Meta usando uma descrição em inglês sobre “bebidas fermentadas”, mas a imagem promete ao usuário uma “plataforma nova” de jogos online. O conteúdo é direcionado para o público brasileiro.

O bloqueio deveria ser automático, pois o destino do anúncio é uma bet ilegal facilmente identificável. Entretanto, até o fim da produção desta matéria, o anúncio seguia em pé.
No Google e TikTok, as coisas são iguais
Fora do ecossistema Meta, os anúncios de bets ilegais seguem da mesma forma. Na Central de Transparência de Anúncios do Google, que reúne todos os anunciantes e domínios verificados, foi possível achar anúncios que usam a palavra “apostas”.
Ou seja: o usuário que for identificado como alvo dessa propaganda pode clicar e ser direcionado a casas de apostas.

Já no TikTok, o Tigrinho está longe de morrer. Através do TikTok Creative Center, uma plataforma que recomenda os criativos de maior engajamento para outros anunciantes entenderem o que tem melhor performance no site, recebemos indicações de 2 anúncios com imagens do Fortune Tiger focados no Brasil.

Repare no print acima que o anúncio é direcionado ao público do Brasil, com legenda "Novo jogo incrível" e ainda conta com uma tarja com aviso de Jogo Responsável.
Conteúdo orgânico de bets ilegais segue como se não houvesse MP
Os casos mostrados acima são apenas de anúncios pagos em plataformas de redes sociais. Ou seja: empresas como Meta, Google e TikTok veiculam esses anúncios para o público. Entretanto, os exemplos de conteúdo orgânico de bets ilegais são abundantes nas redes sociais. No Instagram, bets ilegais seguem divulgando apostas esportivas sem dificuldade, como mostram os prints abaixo:


Como as imagens acima mostram, as bets ilegais incluem, inclusive, a advertência obrigatória do Ministério da Fazenda em seus posts.
Influencers na mira do Ministério Público por propaganda de bets
Segundo coluna da Folha de São Paulo, alguns influenciadores de grande porte estão sendo investigados pelo Ministério Público por suspeita de divulgação de bets ilegais.
De acordo com a Folha, os perfis de Davi Brito (campeão do BBB 24, da Globo), Raquel Brito (ex-A Fazenda, da Record) e Bia Miranda (ex-A Fazenda, da Record), passaram a ser monitorados pelo MP por supostamente divulgarem links de cassinos após a proibição pela MP 1.394.
Além deles, a coluna revela que outros influenciadores menores também foram denunciados ao MP e estão sob investigação para apurar se estão divulgando plataformas ilegais nas redes.
MP pode dificultar a fiscalização de bets ilegais no mercado
Apesar de montada com o objetivo de proteger os jogadores e deter as apostas esportivas e jogos de cassino no Brasil, a MP nº 1.394/2026 pode ter efeito contrário. Afinal, parte dos recursos para fiscalizar as bets ilegais vinha justamente das operadoras legalizadas.
Segundo nossa apuração, cada bet legalizada pagava ao governo um valor mensal que poderia chegar a R$2 milhões, a depender do faturamento da casa. Esse montante chegou a R$100 milhões em 2025 e foi destinado à fiscalização do setor.
O dinheiro da fiscalização era usado justamente para combater a presença de bets ilegais no Brasil e, com a proibição de todas as operadoras, os recursos deixam de ser pagos.
Desde a publicação da MP, o governo já identificou mais de 16,6 mil sites ilegais de apostas e cassinos e direcionou os domínios para bloqueios por parte da Anatel.
Além disso, o governo também identificou mais de 20 mil páginas, perfis e grupos nas redes sociais que, somados, alcançavam mais de 18 milhões de pessoas.
Entretanto, apesar do esforço para combater as bets ilegais, a facilidade para criar novos domínios e perfis transforma a tarefa em um “enxugar de gelo”, como dito pela própria Anatel em 2024.
O que acontece agora?
No meio dessa situação, a MP 1.394/2026 segue em análise no Congresso e no STF. Uma comissão mista de senadores e deputados já foi montada para apreciar e votar o texto e as emendas propostas pelos parlamentares.
Do outro lado, as associações que representam as bets entraram com medidas no STF contra a MP e o caso está com o Ministro Luiz Fux, que ainda não se pronunciou sobre a matéria.
Salvo evento em contrário, a MP 1.394 segue em funcionamento até o dia 24 de novembro, podendo ser prorrogada até janeiro de 2027.
