
Efeitos da MP: Milhares de trabalhadores afetados e iniciativas solidárias
Ao estampar um rótulo de proibido à exploração legalizada de apostas online no país, a Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro de 2026, não apenas obrigou bets e apostadores a retirarem seus times de campo. Forçadas a suspender suas operações, muitas empresas detentoras dos sites de apostas tiveram de promover cortes de colaboradores, tanto parcialmente quanto de modo irrestrito, com demissões em massa.
De acordo com levantamento parcial da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), divulgado em 8 de outubro, mais de 3.500 trabalhadores haviam sido demitidos e outros 4.167 entraram em férias coletivas. A estimativa da entidade é de que as demissões cheguem a 5.600 em 90 dias, se o cenário atual permanecer.
A ANJL ainda projeta que, se a MP 1.394 for mantida, até 60 mil empregos diretos e indiretos podem ser atingidos, incluindo não apenas as operadoras, mas também contratos com publicidade, atendimento e outros serviços prestados por terceiros.
As primeiras semanas após o abalo que paralisou o setor produziram muitos relatos de profissionais afetados nas redes sociais, especialmente no LinkedIn, rede social dedicada ao networking e ao mundo do trabalho. Quem perdeu o emprego ou entrou em aviso prévio já sabendo da data de saída tem vindo se manifestar, não somente para comunicar que adotou o status de “Open to Work” mas também para apresentar suas credenciais, funções com experiência e áreas de interesse.
Preconceito e reputação negativa
Além de não poderem contar com um mercado estagnado para investimentos e contratações, em compasso de espera se haverá futuro para a atividade no país, um obstáculo a mais na busca por recolocação precisa ser enfrentado por esse contingente: a imagem negativa que grande parte da sociedade brasileira atribui às apostas atualmente, extensiva às empresas do setor, respingando assim em quem trabalhou para bets ou com bets.
É sabido que a atividade de apostar pode ocasionar compulsão, perda de controle e um quadro de vício. Nesse cenário, o apostador adoece e fatalmente terá considerável prejuízo financeiro, pelo tanto que gastou nas sucessivas apostas e o volume perdido. Pessoas nessas condições consomem menos em outros setores da economia e se endividam mais. Não por acaso, as apostas foram enquadradas como responsáveis pela queda de desempenho de setores varejistas, como lojas e supermercados, ou seja, declaradas inimigas da atividade comercial como um todo.
Dias antes da publicação da MP, o presidente Lula repetia o discurso de que iria acabar com as bets, dando a entender que as apostas faziam mal aos brasileiros. “É o pobre que joga, é o pobre que fica doente, é o pobre que se mata por causa das bets”, disse o governante no dia 23 de setembro, em ato de campanha eleitoral com artistas no Rio de Janeiro.
Essa reputação negativa pesada se reverteu em preconceito sofrido por quem colaborou com ou foi parte integrante do mercado de apostas, como uma espécie de mancha no currículo. Em reportagem publicada pelo portal UOL no dia 12 de outubro, uma profissional demitida lamentava o baixíssimo retorno após se candidatar a dezenas de vagas, declarando se sentir “marcada” e vista com muito preconceito pelo mercado de trabalho tradicional.
Melhor seria portanto que os ex-colaboradores de bets disfarçassem ou ocultassem a passagem pelo setor, em currículos e entrevistas de trabalho? A controvérsia virou pauta recente na seção LinkedIn Notícias, que compartilha análises de especialistas em recursos humanos. Nelas, enxergamos a preocupação com que a avaliação de capacidades e potencialidades de profissionais se sobreponha ao julgamento do segmento onde eles atuaram nos últimos anos. Para os analistas, a reputação ruim de uma empresa não deveria virar um carimbo na carreira de quem trabalhou nela.
Especialista em marketing e CRM (Gestão de Relacionamento com o Cliente, da sigla em inglês), Thaís Policarpo Vellardi afirma sentir na pele esse preconceito. “Mandei currículo para mais de 100 vagas e tive o contato de três empresas apenas. Meu perfil no LinkedIn tem mais de 700 visitas, mas ninguém me chama para conversas. As pessoas esquecem que todos trabalhávamos em um mercado legalizado e regular, ninguém estava cometendo nenhum crime”, desabafa ela, que foi desligada assim como todos os colaboradores da B1 Bet.
Embora creia que as apostas possam ser retomadas, mesmo sem a totalidade das operações permitidas anteriormente, Thaís tem dúvidas sobre sua continuidade no segmento. “Sinceramente neste momento não me sinto segura para voltar. Mas óbvio que o salário também conta muito para esse tipo de decisão. Por exemplo, não consegui encontrar nenhuma vaga aí pelo mercado que equivalesse ao meu salário nas últimas oportunidades que tive dentro do iGaming”, conta ela, preocupada com seu contexto familiar. “Sou mãe e na dinâmica atual da nossa família, a renda principal estava sendo provida pelo meu trabalho, uma vez que meu marido aproveitou esse momento para empreender. Porém, no momento atual, sem o mercado de bet, as coisas estão bem complicadas”, relata.
Aposta otimista no setor
Quem percebe o desafio de se dar bem no mercado há alguns anos entende que a injustiça por trás desse preconceito é ainda maior. “Deveria ser exatamente o contrário. O profissional de iGaming é dedicado e vem de um mercado ALTAMENTE competitivo, onde performance era obrigatório, então, para qualquer empresa com visão, as portas deveriam estar abertas a esses profissionais, pois faziam parte do mercado mais competitivo, regulado e dinâmico que já conhecemos no Brasil”, avalia Vitor Fonseca, especializado no atendimento a usuários de contas VIPs.
Ele atuou por um ano e meio na plataforma de apostas Pitaco, antigo Rei do Pitaco. Na segunda-feira pós MP, cerca de 30% dos profissionais foram desligados. Felizmente, Vitor já conseguiu uma vaga em um portal de notícias de iGaming na América Latina, com possibilidade de trabalhar em sua área de atuação em paralelo, e está otimista para a reabertura do setor no ano que vem, com plano de seguir atuando nele.
“Eu amo esta indústria, os profissionais, a atmosfera, os amigos que nela fiz. Eu vivo o iGaming, estudo, trabalho, me dedico e nela venho construindo uma carreira sólida. Não à toa fiquei tanto tempo na mesma casa sem ter saído, afinal nesta indústria quem não entrega é rapidamente substituído. Aqui, mais do que em qualquer outro negócio, você é medido pelo que você entrega e eu me sinto confortável no dia-a-dia desafiador que a indústria em si nos exige”, comenta o profissional de 38 anos de idade.
Já o designer gráfico Celio Sarmento Junior, 28 anos, ainda não conseguiu se recolocar após a trajetória de quase 5 anos no iGaming ter sido interrompida. “Avancei em etapas de alguns processos seletivos, mas ainda sem entrevistas. Sendo realista, está levando mais tempo do que eu imaginava, faz parte do jogo e, tendo colegas ajudando com recomendações e indicações, me deixa mais confiante”, explica ele, que diz considerar possibilidades de atuar fora do setor inclusive. “Estou aberto a boas oportunidades, dentro ou fora do setor. Meu foco é design e marketing, e quero ampliar minha atuação para outros mercados, principalmente o esportivo”.
Solidariedade profissional
Felizmente, o sentimento de empatia e a vontade de ajudar concretamente já motivaram iniciativas solidárias aos afetados pela crise do segmento. A maior e mais conhecida até agora é encabeçada pela iHunters, consultoria especializada em executive search para o mercado de iGaming. “Foi a melhor iniciativa que vi por hora”, disse Vitor Fonseca.
Ela propõe conectar pessoas desligadas do setor a empresas de iGaming no exterior, bem como oportunidades em outras indústrias. Os interessados podem se cadastrar gratuitamente em uma plataforma da iHunters, que cruza as informações dos candidatos com vagas de clientes do setor de iGaming em 21 países e uma rede de recursos humanos em áreas como tecnologia, mídia, esportes, varejo, fintechs e serviços financeiros.
CEO e fundador da iHunters, Bruno Cabrelon revelou que o saldo nas primeiras semanas já era de sucesso: a plataforma recebeu mais de 900 inscrições até 19 de outubro. Alguns recortes estatísticos trazidos por ele na data:
- Origem dos cadastrados: 46% são do Estado de São Paulo; 12% de Minas Gerais e 12% de Pernambuco.
- Setor de atuação: 30% de Marketing; 24% de Operações; 10% de Tecnologia.
- Considera se mudar?: 30% para outros países, 20% somente para Europa e 16% somente para América Latina.
Individualmente, profissionais com amplas redes de conexões, experiência no iGaming ou áreas próximas, além de recrutadores, também ofereceram apoio no LinkedIn, seja para abrir conversa sobre possibilidades de recolocação ou promover maior visibilidade a quem foi afetado. Este é o caso de Isadora Marcante, jornalista e iGaming Market Strategist, gerente de relacionamento sênior para a América Latina na SBC.
Ela ofereceu realizar entrevistas individuais com os interessados, tendo foco exclusivamente profissional, para publicação nos perfis da iGA Business Academy no LinkedIn e no Instagram, além do seu perfil pessoal no LinkedIn, tudo gratuitamente. O intuito é que as entrevistas sirvam como material de apresentação dos profissionais, que por sua vez poderão utilizar esses registros para divulgarem suas trajetórias, experiências e competências.
Procuramos Isadora para saber se ela já havia recebido contatos de interessados, mas não obtivemos resposta até o fechamento desta reportagem. Em havendo retorno, o texto será atualizado.
